SEM ASAS E SEM
PERNAS
Não tinha movimentos das pernas
Movia-se em cadeira de rodas.
Suas chagas eram fundas
E sua vida, dolorosa.
Tronco abaixo infuncional,
Não lhe servia a bexiga
E tinha problema renal.
Sua vida era a casa
Os jogos seu passatempo,
Passava seus dias com os braços fracos
Atirado sobre as pernas mortas,
Abria e fechava portas
Pra ver seu dia passar.
No rosto não existia sorriso
E no passado não havia histórias,
Mas sonhava com um futuro de glórias
De um jogador de futebol.
Dizia que quando as pernas se
movessem,
Seria tudo diferente,
Faria o que e como quisesse
E seria considerado gente,
E não mais o coitado,
Que ele próprio e a sociedade
rotularam.
Então ele foi crescendo
O corpo desenvolvendo
E junto com ele as chagas.
E ele permaneceu sonhando com pernas
Com chutes certeiros em bolas
E as carnes mortas das pernas
Foram matando seu corpo
E os olhos piedosos dos outros,
Mutilando sua alma.
E assim, de apenas sonhar com pernas,
Deixou de criar asas
E pela pena que sentiam dele
E que ele sentia de si
Acabou por viver uma meia vida
Triste, amargurada, perdida.
MAZZUCCO, Marcos
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