segunda-feira, 30 de setembro de 2013

VIVER POESIA

VIVER POESIA

Tento narrar em poesia
Fazer da prosa, verso
E do monótono, alegria.
Tento sonhar acordado
Reinventando meu dia
Mudar o não mudado
Tornar tudo fantasia
Esta sina de poeta
De nunca viver a vida
Apenas viver poesia.




MAZZUCCO, Marcos

VAZIO INFELIZ

VAZIO INFELIZ

Fico no vazio infeliz de um quarto escuro
Esperando que o mundo me encontre
Escondendo-me da vida, busco viver
E não querendo, sinto necessidade de querer.
Baixo os olhos, para as coisas que me alegram
Eu tristemente não as ver.
Ando contra o vento, nado contra a maré,
Somente pra provar a mim mesmo que posso,
Que apesar de não ser super-herói tenho poderes
E calejo minha alma com essa falta de prazeres
E destruo meu corpo com essa solidão.
Somente para me promover,
Egoísta, tento aparecer
Para que todos se lembrem deste pobre solitário.
Vivo no vazio infeliz interior, esperando
Que a pena que causo, me venha a preencher.




MAZZUCCO, Marcos

UMA MENSAGEM

UMA MENSAGEM
Hoje me lembrei dela
E por ter lembrado chorei
E lhe mandei uma mensagem,
Coisa simples, palavras ocas,
Era uma ainda penso muito em você,
Mais do que você imagina,
Disfarçado de pergunta boba,
Disfarçado de não quero
Nada além do que pode dar,
Querendo tudo e um pouco mais.
Foi tão boba a mensagem,
Não passava de um breve olá
E ainda assim passava tudo.
As palavras tolas enviadas
Imprimiram assinatura
A todas as cartas românticas
Que recebia, perfumadas e anônimas,
Deram nome aos olhos,
Que ela sentia que a seguiam
Sem saber quem era,
Expuseram quem pergunta dela
Aos outros e pede segredo.
Aquela mensagem
De três breves palavras,
Sem sentido talvez,
Acabou sendo mais que palavras,
Tornou-se pedido, entrega,
Meu desespero e perdição,
De esperar tua resposta,
Chorando por um sim
Aguardando pelo não.
Então me respondeu a mensagem,
Boba, de três frágeis palavras,
Com outra, tão breve, tão fraca
E tão oca quanto a minha.
Eu fiquei sem saber se fingia ou não entendia
Que ao dizer “oi” eu dizia “te amo”
E que o “tudo bem” perguntado
Era um pedido desesperado
Pela sua presença.
Então fiquei lembrando e chorando
De quem talvez nem esteja lembrando
Quem um dia fui para ela.
O “oi” e o “tudo” respondidos
De resposta seca, reta, gelada,
Me dizia muito, mas
Não me respondia nada,
Nada do que eu queria

MAZZUCCO, Marcos

TRAVESTIDO

TRAVESTIDO

Sou elas e elas minhas
São belas, senhoras,
Donzelas, rainhas,
Damas, divas, bandidas
Geram fios de amor em vida
E matam com golpes de olhar,
Me chamam, encantadoras,
Me amam,
Essas mulheres tão lindas.
As quero, espero e busco
E travestido encontro,
Preciso delas
Amo-as,
De corpo e alma
De uma forma tão diferente.
Busco parte minha nelas
E tento homenageá-las
Mostrando em mim
Parte delas.



MAZZUCCO, Marcos

TODAS OU TUDO

TODAS OU TUDO


Todas minhas canções são pra você
Mesmo as cantadas baixinho
na escuridão da minha noite
nas loucuras dos meus sonhos
na solidão dos meus porquês.
Todos meus suspiros são pra ti
e meus choros e meus gritos e
meu desespero e meu esporro
Todas minhas palavras
querem te alcançar,
me impregnar, te abraçar
e te trazer pra mim
E meus risos querem ser soltos
escrachados,
mas são risos amarelados
aqueles que não te pertencem.
Todos meus dias são teus
esperando, te pedindo,
me remoendo de medo
e te implorando
que só me queira do seu lado
ou que só esteja me esperando.

Mazzucco, Marcos

SÚBITO

SÚBITO

Procurava incansavelmente
Algo que completasse sua loucura
Mas frustrava-se
Pois não havia homem ou mulher,
Nem algum ser qualquer
Que de fato lhe preenchesse.
Um dia, por acaso,
Numa dessas cruzadas
Fatais de olhares,
Sentiu que havia encontrado,
Passou a ter seus melhores dias,
Substituiu a tristeza por alegria
E o vazio por um tal amor.
De repente aquilo tudo,
(Aquele conto de fadas inacabado)
Tornou-se seu desespero,
Seu motivo de acordar,
De fazer qualquer coisa,
Até mesmo respirar
E incompreendendo a grandeza
De tal momento,
Tomou-lhe de súbito medo,
Pois de tão feliz que estava,
Perdeu-se de si mesmo,
Na sua filosofia barata
Aprendida pelas
Falas velhas sábias,
Felicidade, amor e coisas da alma humana
Eram intangíveis aos iguais a ele.
Sentiu-se traído por si mesmo.
Refugiou-se no fracasso
De convenções estabelecidas
Viveu uma bela e admirável vida
Que nunca foi de fato dele.





MAZZUCCO, Marcos

SONHO REAL

SONHO REAL

Acordo suando no meio da noite
Com olhos revirando de prazer e desejo
Esfrego a mão no colchão vazio
A meu lado e o que vejo?
Era apenas um sonho.
Como podes me ser tão real?
Me tomar em teu corpo
E me sugar em um beijo
E ao mesmo tempo não passar de sonho?
Como podes me tirar o fôlego,
Me deixar eufórico,
Me matar de cansaço,
E ser só fantasias, mentiras e embaraços
De imagens da minha cabeça?
Como podes ser tão melhor em sonho
Tão mais romântico, prazeroso e divertido
Ser tão mais vivo e mais sentido
Que quando sinto de verdade?
Como pode? Não o sei,
Mas estou preferindo sonhar a viver
Porque ali, em sonho,
Eu te tenho e tu me tens,
E no real mundo mal sentido,
Não provoco os sentidos de ninguém.



MAZZUCCO, Marcos

SINA

SINA
Sofria de poeta.
Da sina das palavras,
Que teimavam em saltar
Diante dele.
Tropeçavam na sua cabeça
E não tardavam transbordar
Pelas mãos, lábios ou olhos
Parte de seu carma de artista
Era sentí-las
Nunca eram letras apenas
Elas vinham carregadas,
Diria sobrecarregadas
Das possibilidades
Da palavra escrita.
Atiravam-se pelas pontas
Dos dedos do poeta
E iam se fazer vivas.
Algumas de tal empáfia
Atiravam-se com as salivas
Faziam-se como punhal,
Capaz de perfurar quem ouvia,
E depois fugiam.
Elas não tinham apego ao poeta
Também ele não tinha por elas,
Acabou, com o tempo,
Por nem querer saber delas
E jogá-las por aí
Hora como pedras,
Visto a dureza que tinham
Hora como beijos,
Que iam doces
Acariciar faces alheias.
Não viveu para as palavras
O distinto poeta,
Mas por elas foi guiado
Numa bela trajetória,
Ou não tão bela,
Visto que a sina do poeta era
Levar vida atirada,
 Qual suas palavras.
Como a poesia que ia criando
(Que se moldava a tudo)
Assim também ele era
Jogando-se a tudo que vinha.
A sina do poeta não era
Sentir, nem ser triste
Nem ser alegre ou melancolia
Era a sina de ser palavra atirada

De ser breve poesia.

Mazzucco, Marcos

SILÊNCIO

SILÊNCIO

Coloquei meu corpo em frente ao abismo
Esperando que em tua rudez me empurrasse
Ou que em belo gesto de afeto
Com suas mãos me puxasse
Mas ficaste parado, talvez me olhando
Eu estendi meus braços ao céu implorando
Mas tuas respostas se calaram.
Me feres mais com teu silêncio
Do que poderia me ferir tua fala
Me machucas mais ao calar-te
Do que se me violentasse com fúria.
Porque te manténs calado?
Acabe logo com a amargura que tenho
Diga-me coisas hereges, ásperas, ofensivas
Empurre-me, me maltrate, espanque
Só não fique imóvel, estático
Tão silencioso que até me causa dúvida
De que realmente esteja ali.
Não deixe na beira do abismo
Faça algo, mova-se, até de forma sutil,
Mostre-me
Faça-me acreditar que seu silêncio
Não é ausência
Faça escolhas por mim,
Mesmo que não sejam as corretas
Leve-me pra junto da tua presença
Me cala pra sempre,
Ou me deixa gritando teu nome
Só não me deixe,
No silêncio do abismo.




MAZZUCCO, Marcos

SEM RUMO


Me sinto sozinho no mundo
As vezes um vagabundo
A trilhar qualquer caminho.
As vezes não tenho o que comer
Outras vezes não tenho fome,
Ando por aí sem nome
E sem vínculos com ninguém.
Não tenho rosto, nem sou visto,
Sou mendigo,
A calçada é meu abrigo,
Minha cama todo dia.
Ando por aí em farrapos,
Minhas roupas são só trapos,
Mas é tudo o que tenho.
Nas noites frias não sinto medo do perigo,
Pois, junto de mim está meu amigo,
O papelão velho que me cobre.
É assim que vou vivendo,
Sem rumo, maltrapilho, fedendo,
Mas, de bem comigo mesmo.



.MAZZUCCO.

SEM ASAS E SEM PERNAS

SEM ASAS E SEM PERNAS

Não tinha movimentos das pernas
Movia-se em cadeira de rodas.
Suas chagas eram fundas
E sua vida, dolorosa.
Tronco abaixo infuncional,
Não lhe servia a bexiga
E tinha problema renal.
Sua vida era a casa
Os jogos seu passatempo,
Passava seus dias com os braços fracos
Atirado sobre as pernas mortas,
Abria e fechava portas
Pra ver seu dia passar.
No rosto não existia sorriso
E no passado não havia histórias,
Mas sonhava com um futuro de glórias
De um jogador de futebol.
Dizia que quando as pernas se movessem,
Seria tudo diferente,
Faria o que e como quisesse
E seria considerado gente,
E não mais o coitado,
Que ele próprio e a sociedade rotularam.
Então ele foi crescendo
O corpo desenvolvendo
E junto com ele as chagas.
E ele permaneceu sonhando com pernas
Com chutes certeiros em bolas
E as carnes mortas das pernas
Foram matando seu corpo
E os olhos piedosos dos outros,
Mutilando sua alma.
E assim, de apenas sonhar com pernas,
Deixou de criar asas
E pela pena que sentiam dele
E que ele sentia de si
Acabou por viver uma meia vida
Triste, amargurada, perdida.



MAZZUCCO, Marcos

SECO





jogo de palavras:


SECO










Reto
     Certo
          Direto
               E pronto
Machuca
     Maltrata
          Ofende
               É perdido
Doído
     Rasgado
          Ferido
               No ponto
Conjunto
     Carente
          Chorando
               Ou sorrindo
Criador
     Mulambo
          Menino
               E bandido
Transgride
     Expressa
          Escrevendo
               E sentindo

Mazzucco, Marcos

SÊ ARTE

SÊ ARTE

Sou o poeta dos inversos,
Dos versos inacabados,
Das paixões mal resolvidas,
Dos encontros inesperados
E desencontros da vida.
Sou prosador, sou versista,
Sou volúvel, sou versátil,
Sou sonhador, sou artista.
Sou palco, voz, corpo e plateia,
Um riso farsesco no drama
E uma nota da melodia,
Sou agudo semitonado,
Uma folha em branco com listras
Sou escracho encenado,
Uma letra rabiscada,
Uma tela rebuscada.
Sou o que devo ser,
Sou um tudo sendo nada
Sou arte e ponto.


Mazzucco, Marcos