terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O QUE PODEMOS FAZER?

E o que podemos fazer, se enquanto caminhamos, eles correm? 
Enquanto nos debruçamos sobre o sagrado democrático de tentar incluir todos e todas eles decidem e vociferam por nós usando como argumento o sermos representados?
O que podemos fazer se enquanto discutimos soluções de longo prazo eles enfiam goela abaixo soluções pre-definidas e fadadas ao fracasso?
O que podemos fazer se somos pouco e nossas vozes são tão baixas perto dos amplificadores que são as mídias?
Se nossos apelos atingem poucos e dos poucos que atingem a maioria não afeta?
O que podemos fazer se nossos versos dizem 'pensa' mas a tela grita 'veja' e eles preferem Veja a uma discussão saudável?
o que podemos fazer se eles dizem trabalhe e fazem com que apenas o trabalho valha e te definem por ele?
E o que fazer? Se enquanto pensamos em crise eles trabalham por ela?
O que podemos fazer se eles cantam o hino de maneira inflada enquanto doam nossas riquezas ao primeiro que passa?
se eles gritam que jamais seremos vermelhos enquanto nos sangram até a ultima gota?
o que nos resta? a nós que temos como sina a poesia? que somos verso? que somos partitura, teatro, tinta?
O que as nossas eternas inutilidades podem fazer? O que nossas vagabundagens tem a oferecer?
Façamos.... de nossos corpos, arma. já que armas de fato não nos agradam... Sigamos.... sendo loucos.... Provoquemos.... as loucuras alheias.... Sejamos.... arte.

sábado, 19 de novembro de 2016

POUCO

Que nos tirem tudo. 
Que nos suguem 
até a última gota de esperança 
e que esfreguem suas conquistas em nossas caras.

E quando não nos restar mais nada
e nada tivermos a perder,
nos restará a barbárie... 

e eles se arrependerão de ter nos tirado o tão pouco que nos aquietava 
e pouco algum do mundo nos aquietará novamente.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Temos corpo para resistir?

Temos corpo para resistir? 
quando a reflexão nos causa dor e asco
me pergunto se temos corpo pra resistir.
corpo uníssono, coletivo
sabemos ainda resistir em grupo?
ou nos acostumamos aos brados
de "sobrevive o mais forte"
"que vença o melhor"
e todos sussurros que impregnam
em nossa mente a concepção do mérito?
Temos corpo capaz de resistir?
Corpo socado, surrado,
Golpeado cada dia com novos arroubos de falsa melhoria.
Sobreviveremos? Sub-viveremos?
Os nossos corpos já quase corpo-máquinas
ainda nos pertencerão?
seremos leiloados em lote fechado 

feito peças com funcionamento e tempo de duração programado?
Os nossos corpos resistem...
nossas horas trocadas por trocados que mal pagam nossa comida
e as poucas horas que nos sobram
a defender os que nos sugam centavo a centavo nossa vida...
"tempo é dinheiro" eles dizem...
"seremos aquilo que quisermos ser"
A liberdade dos poucos que escraviza os muitos
"serão feito engrenagem em máquina"
é o querem dizer...

sábado, 27 de agosto de 2016

Descre(ve)r

Vendo a vida passar através dos cliques e fotos alheios
Tão cheio de risos, de rostos,
de amigos - quase imaginários - que transborda vazio.
Como escrever o oco?
Descrever o vazio de sua vida
preenchida de superfluos,
tão fingidamente importante e completa?
Se uma imagem vale mais que mil palavras,
que tal mil imagens?
mil faces do mesmo rosto
mil versões mesmo sorriso branco
mil repetições de intenso não brilhar dos olhos.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Constatação

A gente vai perdendo o outro aos poucos, 
Na fala que deixa de ser dita, no olhar que muda, 
No trato.
Vai deixando de ser interessante,
Repetindo histórias, 
A gente vai abrindo espaços, deixando lacunas,
Se isentando e se ausentando
Vai compactuando.
A gente vai criando monstros
E quando menos percebe
Dá de cara com o maior deles...
Sim, ele: O frio, duro e irremediável fim.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

DAS MÃOS QUE ME TOCAM

Na lógica da troca, do negociado
Eu me troco, eles me tocam... por trocados.
Sob o manto do sagrado que virou profano
O meu sexo é jogado, subjugado,
Privatizado e explorado
Da dor e da delícia de ser quem se é,
Eu só conheço a dor (o pecado)
A delícia? Terceirizei pro gozo alheio.
Eu nunca lembro quem foi ou quem veio
E os 10, 20, 30 de cada dia
Viram cifras e carnês quitados,
Um amém pra Deus pelo dia e um obrigada.
Sou desquitada, excomungada
Divorciada dos direitos de ‘mulher honrada’
Eu tenho frio, tenho fome, tenho medo
Tenho ganância (na sina do lucro tão celebrada)
E não tenho nada,
Só meu corpo (mão-de-obra superexplorada),
Minha carne que sangra, meu sangue contaminado
E pressa.
Eu tenho a pressa dos poucos anos,
Do acumular riquezas,
A pressa do trabalho que deforma o corpo e o gozo.
Eu tenho minha carne nua e os trocados
Que ganho pra pagar a carne do mês,
Pra comprar uma saia curta e um vestido decotado
Que vai chamar mais freguês.
Tenho também a falsa ideia de que vou sair quando eu quiser
E o sorriso debochado de quem tem que dizer que é suportável,
Que é libertário, que é rentável
Pra não morrer no choque do desgosto
E pra deixar o cliente mais confortável
E a grana fluir mais fácil.
Das mãos que me tocam não sei nem o nome
E não me interessa saber,
Ganho pelo não dizer, pelo satisfazer
Não ganho pra argumentar.
Das mãos que me tocam, só quero que logo se troquem
Toquem seus bolsos , me deixem a quantia da ‘troca negociada'
 e sigam seus rumos.

Só quero os trocados, mais nada.



.MAZZUCCO.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

(ou desossa)

Depois da festa macabra o banquete, 
Sobre a mesa há carne (a mais barata do mercado)
Que há tempos alimenta os porcos, hoje alimentará os abutres.
Pintados de um verde-amarelo que não representam 
Os abutres se espreitam, se enfileiram e se deliciam
Com o desossar da tão frágil carne quase morta.
O sangue que se mantém na carne se esvai aos poucos
Como se fosse secando a cada pequeno golpe.
Algumas vermelhas gotas debatem-se, quase insanas,
tentando fugir ao destino trágico
Mas os abutres são treinados na faca desossar direitos
E o fazem com total escárnio
Cortando da frágil carne brasileira os nervos
Também os meus, os seus, os nossos.


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