quarta-feira, 1 de junho de 2016

DAS MÃOS QUE ME TOCAM

Na lógica da troca, do negociado
Eu me troco, eles me tocam... por trocados.
Sob o manto do sagrado que virou profano
O meu sexo é jogado, subjugado,
Privatizado e explorado
Da dor e da delícia de ser quem se é,
Eu só conheço a dor (o pecado)
A delícia? Terceirizei pro gozo alheio.
Eu nunca lembro quem foi ou quem veio
E os 10, 20, 30 de cada dia
Viram cifras e carnês quitados,
Um amém pra Deus pelo dia e um obrigada.
Sou desquitada, excomungada
Divorciada dos direitos de ‘mulher honrada’
Eu tenho frio, tenho fome, tenho medo
Tenho ganância (na sina do lucro tão celebrada)
E não tenho nada,
Só meu corpo (mão-de-obra superexplorada),
Minha carne que sangra, meu sangue contaminado
E pressa.
Eu tenho a pressa dos poucos anos,
Do acumular riquezas,
A pressa do trabalho que deforma o corpo e o gozo.
Eu tenho minha carne nua e os trocados
Que ganho pra pagar a carne do mês,
Pra comprar uma saia curta e um vestido decotado
Que vai chamar mais freguês.
Tenho também a falsa ideia de que vou sair quando eu quiser
E o sorriso debochado de quem tem que dizer que é suportável,
Que é libertário, que é rentável
Pra não morrer no choque do desgosto
E pra deixar o cliente mais confortável
E a grana fluir mais fácil.
Das mãos que me tocam não sei nem o nome
E não me interessa saber,
Ganho pelo não dizer, pelo satisfazer
Não ganho pra argumentar.
Das mãos que me tocam, só quero que logo se troquem
Toquem seus bolsos , me deixem a quantia da ‘troca negociada'
 e sigam seus rumos.

Só quero os trocados, mais nada.



.MAZZUCCO.