ROTINA
Como sempre, chegou quieto,
Sentou-se em sua poltrona, recostou-se para trás e
adormeceu.
Ela acordou-lhe, a comida já havia esfriado esperando por
ele,
Mas nada tão frio quanto o olhar dele para ela.
Ele falou coisas ruins do dia, o que havia passado,
Deixou-a só num canto e foi jantar,
Assim que terminou foi deitar-se
E logo entrou num sono inconstante.
Ela, que a tempos não se fazia bonita,
Abriu seu velho guarda-roupa e acariciou seu vestido,
Vermelho e com cheiro de naftalina.
Chorou recostada no ombro do sonolento marido,
Jamais tivera coragem de vestir-se de tal modo.
Após saiu para a sala, sem vestido, sem nada;
Deitou-se se abraçando em uma almofada,
Ligou o rádio em volume baixo
Para ouvir sua valsa predileta.
O marido acordou-se e foi devagar até a sala.
Deitada em sua poltrona encontrou,
A mulher que não mais amou,
Desnuda e abraçada
Em pose de dor,
Apertando contra o corpo a almofada
E na bela face, maltratada,
Viu marcas de duas lágrimas que corriam.
E com sua voz rude e rouca, acordou-a
Mandou-a deitar-se onde, e como se devia.
E nasceu outro dia.
Ela em um canto, ele fora.
Ela novamente com lágrimas,
Ele com muita rudez.
E o dia pôs-se novamente triste,
E nasceu novamente,
Numa roda amarga, que nunca para de rodar.
Mazzucco, Marcos
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