sábado, 12 de setembro de 2015

EUS

Horas a fio perdido nas teias intermináveis de conhecimentos que não me levam a lugar algum.
Conexões inusitadas das palavras que saem de bocas mil.
Gosto de ouvir os outros e contestar, não me contento com o absoluto, amo o relativo  das coisas e tentar entender o todo me consome.
A vontade de estar em todos os lugares, saber e conhecer todas as coisas e transformá-las contrasta com a inércia do meu corpo.
Sou uma diversidade de eus, uma colcha de retalhos, um quebra cabeça de mil e uma peças.
Sempre tem algo que falta, nunca estou completo e tem algo sempre sobrando.
Às vezes me pergunto sobre as bases que me sustentam: Que bases?
Não consigo estar sólido, sou líquido, transbordo, me dissolvo, sigo a correnteza, a maré...
Sigo o fluxo, na frustração de querer ser tudo e de saber que na relatividade das coisas, nada, é o que se é.

.Mazzucco.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

capsulas e colapsos.

Um comprimido pra acordar, dois pra dormir
Prozac, lexotan, tersat, fluoxetina, rivotril, ritalina
E nos dias que estou ‘good vibe’: Florais
Café, café, café, café, café, café, café, café, cafeína, nicotina, taurina e guaraná para aguentar o tranco.
                                                                                                              !!Uma dose de vodka e duas de xarope
O fígado maltratado
O fígado grita
O fígado esbraveja
                                “O fígado, fígado, fiiiigadooo!”
Acordei falando e estava sozinho. Na internet diz que é sintoma de esquizofrenia.

Devo procurar um médico? Um psicólogo? Um analista? Um psiquiatra?
Eu preciso de um remédio! ‘Tô’ vendo vultos, falando sozinho e não durmo.

Dois comprimidos. Aumenta a dose pra três
E quatro, e cinco, e seis, e sete, e oito e.... Um
Droga!
DROGA!DROGA!DROGA!
Atrasado de novo?!
Um comprimido pra ficar acordado
Um comprimido pra relaxar
Um comprimido pro fígado
E esse comprimido verde é pra que mesmo?
Ah, já ia me esquecendo, meu comprimido para a memória.
Não esquecer, não posso esquecer. Não. Posso. Esquecer. Não posso, EU NÃO POSSO ESQUECER!
Tem que tomar Aspirina. Eu vi um dia na TV, tomar aspirinas evita dores de cabeça.
Enxaqueca, sabe?
Dói assim, uma dor bem funda. Parece que vai morrer e não morre... aí vem um afobamento, uma sensação de sufocamento...
É estresse, mas pode ser do coração também... na dúvida UM DE CA DA.
Ansiedade, tenho
Estresse, tenho
Enjoo, tenho
Labirintite, tenho
Tenho, tenho, te, te, te, te, tenho
Sensação de formigamento no braço direito, e ‘tá’ subindo.
Minha boca
Meus lábios
Minha língua
Meu palato
Minha gengiva
Não sinto, não sinto, não sinto, não sinto e não sinto.
Essa sensação, um arrepio, sabe?
Me sobe um calafrio e penso que pode ser espírito,
Sim. Vultos, eu esta VAVEN do vultos.
RIVOTRIL? Dois por favor, com gelo e limão.
Nervoso eu!? Eu!? Nervoso!? Eu não dona Ritalina, a senhora me acalma tanto...
Café, café, café, café, café , café, nicotina e um floral
Ansiedade, sabe?
Café, café, café, café, caféé, cafééé, caféééé, café, café
TV, TV, TV, TV, TV, TV
Internet. Google, facebook, youtube, in Box, instagram
Não sei o que tem que eu não durmo?
Insônia pesada, sabe? Tem dias que eu nem durmo.
E 1, e 2, e 3 e 4. Comprimidos pra dormir.
E eu nem descanso, sabe?
As 22hs e 3minutos vai tocar o despertador que faz eu não esquecer o remédio que estimula a memória.
E 1, e 2, e 3 e 4. horas da manhã.
Assistir um jornal, uma dose caprichada de chá, alface, floral e maracujá

E 4, e 5, e 6 e 7, e 8. Comprimidos pra ficar vivo.

SubProdutos do Descarte

1.
Seres noturnos disputam o frio da noite com seus corpos, expondo sua nudez por alguns trocados.
Noturnos, disputam, frio, noite, corpos, nudez, trocados.
Noturnos, frio, corpos trocados.
À beira da estrada, à margem...
Escondidas.
Atrás.
                A trans
                               Através
                                               Há talvez
                                                               A travesti
                                                                              A travessia dos carros lentos guiados por homens ético-morais que passam pela vitrine do frio da noite.
Atravessam, lentos, morais

2.
Morais e morenas despidas
O não pudor...
O não poder...
Pretas, pobres e putas; as mulatas que estampam as capas forçam outras tantas mulatas (MAIS PRETAS E MAIS POBRES) a se colocarem na vitrine à venda... MAIS PUTAS
A se jogarem nas noites
Com suas poucas roupas
Roupas curtas.
Para ganhar o pão, o pó, o leite
O deleite dos senhores da moral

3.
Bundas e peitos
Corpos perfeitos
O corpo que toda mulher queria ter
Poderia ter
Deveria ter
TER: o verbo da contemporaneidade

A mulher
Estampada         comercializada                 vendida               consumida
A mulher genética; a mulher com grandes aspas de ‘genérica’
TODAS, mulheres.

4.
Expostas e etiquetadas numa vitrine de consumo.
                               As pra comer...
                               As pra casar...
                               As pra uma noite...
                               As pra não chegar nem perto...
                               As despudoradas e as poderosas...
Peitos e bundas. Pernas e coxas. Olhos e boca. Cabelos (preso, solto, liso, cacheado, afro, Black Power). Com pelos ou sem pelos?
PRODUTOS
Tudo o que nos mostram e nos dizem e nos fazem acreditar e nos fazem seguir e nos fazem cobrar de nossas mulheres... mera construção de produto
Machos-alfas validam se é bom ou não
“CONTROLE DE QUALIDADE’’
                                               E aí, comeu?
                                               É puta!
Fiz as contas e é tudo puta:
A que se mantém virgem por opção
A que se vende na noite
A que se vende para um marido bom
A que se vende para o sistema falido
A que se vende jamais
Na boca de alguém, algum momento vai estar um P.U.T.A (Puta)
BEM GRANDE
5.
A inferiorização da meretriz
O subjulgamento do sexo
A liberação do sexo
A banalização do sexo
A criminalização do sexo
A demonização do sexo
A comercialização do sexo

6.
Quanto dinheiro ganha um cafetão ou cafetina?
E as putas da esquina?
Quanto ganham?
Diz-se por aí que estão ali porque querem
Ouvindo isso, exime-se de culpa
Acreditando nisso, exime-se de culpa
Propagando isso, exime-se de culpa
Opção ou imposição? Se expor na rua

7.
A travesti bombada no silicone industrial, com os pés roxos do frio, o canto da boca roxo de uma agressão e as coxas ainda roxas da cirurgia... quer estar ali?
Alguém, em algum lugar, quer estar de fato onde se está?

8.

As putas, as travestis, as trans e os outros seres noturnos são frutos de si mesmos? Ou são frutos de vitrines que a sociedade estimula e consome?

terça-feira, 28 de julho de 2015

SOBRE MEU PROBLEMA DE VISTA...

Acho que perdi meus óculos...
Achava-os perfeitos e sob medida,
Me agradavam em tudo,
Usava-os e exibia, as lentes perfeitas
Cismado que sou, me incomodou algo
Pareciam as lentes
Primeiro vi uma poeira, um cisco
Aí fui mexendo, remexendo
E logo se viu um risco,
E parecia risco velho
Eis que a lente arranhou,
E de lá pra cá não tem sido a mesma coisa
Os óculos que me ajudavam a enxergar melhor
Com aquele velho risco aparente,
Passaram a umedecer meus olhos...
Medo de desfazer-se dos belos óculos
Continuei usando-os e forçando as vistas
...Cansaram-se...
Os óculos foram para o lado,
Passei um tempo sem eles
E meus olhos pareciam curados
Resolvi pô-los novamente
Eis que o maldito risco antigo
Atacou-me as vistas assombrosamente
E a fez transbordar.
Acho que quebrei meus óculos
Agora resta saber se jogo fora
Ou vale a pena consertar....



.MAZZUCCO.

sábado, 4 de julho de 2015

Oficina dramaturgia

Ele caminha com passos largos, olhos firmes na direção em que segue e os pensamentos em um lugar que nem ele mesmo sabe.
Ao fundo uma imensidão de concreto
Arame e madeira.
Concreto armado, na vertical.
Uma sobreposição de cinzas com pequenos quadrados por onde brota luz; a ambientação quase perfeita para aquele solitário.
Ele caminha pela calçada vazia.
Sente na pela (a pouca que está exposta) o calor dos primeiros raios de sol e o vento, um ar gelado (quase fúnebre) do domingo recém iniciado de meio de outono...
Há uma orquestra de pequenos sons...
Carros. Poucos e lentos... o sutil barulho do pneu encontrando o asfalto
Palavras ecoando... e o não tão sutil roncar de um motor
Atchim! (Ouve-se bem longe)
Saúde!
Cof!Cof! alguém tosse...
Um som que de tão longe quase se perde, mas que lhe parece um latido...
Isso foi um miado?
Chega a ouvir o arrastar das folhas pelo vento...
O próprio vento batendo na parede em um assombro ou assovio...
Abrir e fechar de janelas... e portas.
Portas.
PORTAS
Muitas portas, com seu ranger de abrir ou fechar...
As portas não chegam a incomodá-lo, mas o barulho que fazem em sua cabeça lhe tira o foco....
Porque estão aqui? (Se pergunta)...
A sequencia aleatória de diferentes portas- postas lado a lado - o intrigava.
Quais segredos podem guardar estas portas? (Se pergunta novamente)...
Será que há nelas mais segredos que eu possa guardar?
Foto Vivian Maier


sexta-feira, 19 de junho de 2015

AUTO...

Um estranhamento.
Excesso de vazios que transbordam
E que consomem.
Um amontoado de banalidades,
Superficialidades, inutilidades e desejos
Que estimulam e confundem.
Explosões de desejos sem sentido
E sentidos alvoroçados.
Dúvidas, medos, fraquezas e anseios
Dançando ciranda
E apontando com escárnio
Para cada gatilho de ação.
Um interior revirado, bagunçado,
Sofrendo as dores de cada segundo,
Ganhado ou perdido.
Um auto-proibido.
Um auto-julgado.
Um auto-criticado.
Um perdido,
No meio de tantos outros.

.Mazzucco.

domingo, 29 de março de 2015

MONSTROS

Monstros terríveis,
fizeram na minha cabeça morada.
Surgiram não sei quando, nem por que.
Instalaram-se sem dizer nada.
Monstros gigantescos de escuridão
– que tentam me engolir por dentro –
Absurdamente grandes são...
Transbordam em gotas salgadas;
Monstros de vazio e insatisfação
Que sufocam numa falta de ar/vida.
Eles vêm assim (no silêncio de uma noite fria)
E tiram o sono...
Vêm, às vezes, em plena luz do dia
E roubam o calor/força/brilho.
Ficam calados/escondidos/à espreita
- esperando a hora perfeita -
Esperando para atacar/derrubar
E me afundar de uma vez
(por todas e pra sempre)
Na sua escuridão fria.


.... Mazzucco....

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre como escrever poucas linhas

Hoje me bateu uma vontade louca de escrever, de transformar meu sentimento em um emaranhado de palavras, as quais eu chamaria de “nossa poesia”, “poesia da gente” ou algo piegas do gênero.
Eis que me deparo frente à folha branca tentando transpor, entre os milhares de momentos, aquele que consiga nos descrever, mas, uma quantidade absurda de pequenos detalhes  vão brotando em minha mente como se disputassem qual deles é o mais importante, o mais forte e, tentando escolher, me perco.
Paro, analiso (mania de racionalizar tudo) e vejo que é uma dúvida boba, pois, não o “mais” entre os momentos; eles todos, um após o outro, exatamente como e quando aconteceram, a junção de todos eles (das  lágrimas aos sorrisos, dos medos às certezas) absolutamente todos foram -e são- os mais fortes, os mais importantes, os mais bonitos e os mais sinceros que já tive.
Eu passaria horas escrevendo sobre o teu sorriso, do olho que fica miúdo à covinha que se mostra na bochecha; ou do jeito tão meigo que tens de ficar de mau humor; ou das nossas brincadeiras tolas; ou; ou; ou; e me perderia em meio a tantos detalhes que me fazem brilhar os olhos e corar a pele.
Então, tentando ser breve e não parecer clichê demais, eu resolvi resumir tudo em uma palavra: GRATIDÃO... Por partilhar teus momentos comigo e partilhar dos meus também, OBRIGADO.

Ps.: Já falei que te amo hoje?