Eu digo constantemente que parei de escrever,
no infinito desejo de que não escrevendo
eu pare de sentir sobre aquilo que escrevo.
Mazzucco.
São cinco da manhã e ele já está atrasado.
Todo mundo acorda atrasado na metrópole dos prédios e ar cinzas.
Rostos cansados em passos apressados numa manhã fria de domingo.
Todos correm para os seus destinos.
Alguns, mais afobados, empurram e se espreitam entre os atrasados não tão preocupados de seus atrasos.
Todos acordam atrasados na metrópole, como se sempre estivessem um passo atrás numa corrida frenética.
E todos sabem, nestas corridas, cada passo vale muito.... Não sabem como ou porque sabem, apenas sabem.
Para onde vão e de onde vem o amontoado alvoroçado de corpos atrasados?
Vão enfrentar mais um dia ou voltam de um dia enfrentado.
Na metrópole, dia e noite se confundem, em meio a tantos corpos cansados.
Já te chegou assim de repente, vontade incontrolável de chorar?
E você só quis voltar a ser criança por instantes para poder extravasar?
Já te interrompeu o almoço esse sentimento?
Chegou de pronto naqueles segundos de acordado quase em sonho?
Já te tirou o sono?
Ocupou uma manhã inteira e quase não se foi a tardinha?
Te acompanhou quantas vezes essa vontade genuína?
Ela tem sido sua companheira?
Me chegou hoje a teimosa vontade, enquanto conversava na fila com uma senhora franzina.
Num esforço de halterofilista segurei as malditas.
gotas pesadas, embora treine há tempos, quase saltam aos olhos.
Pensei-me por um instante num breu, quase vácuo
desdobrando-me e dando a mim mesmo um abraço
Os braços entrelaçando até quase desfalecer
Estrangulando os canais de passagem
E sufocando as águas que não queriam ceder.
Pensei em te chamar em sonho,
Pra te contar besteiras,
Falar que estamos indo
Beber coisas duvidosas
Brindar até cansar da bebida
E experimentar contigo a ressaca
Mas achei injusto interromper teu descanso.
Abruptamente teu rosto me vem a mente
Teu corpo, cicatriz de dores incontáveis,
Estático e silencioso
dorme um sono tranquilo
Um sono que há tempos não tinha.
Sonhei contigo outro dia
Teus olhos brilhavam um brilho de infância
Brilhavam alegria
Jogava pro alto água iluminada e sorria
Como confetes de uma festa de despedida
Um até breve
De quem parte com esperança
Acordei marejado
"Pode ir, a gente vai se virando"
Senti uma dor pontada no peito
Um misto de desespero e alívio
Um choro engasgado de tudo que fiz
e tudo que podia ter feito.
E tu me aparece assim, qual convite de casamento de um amigo distante: inesperado, cheio de gracejos, despertando interesses e curiosidades.
despretensioso do tempo, como carta escrita a mão em letra delicada, veio ocupando o meu. Como o artista que delicadamente escolhe o tom antes de cada pincelada, veio colorir meus dias
Me faz dançar uma valsa e uma ciranda, como uma criança boba que sorri à vida despreocupada.
Será que você entende realmente o que significa amar?
E se entende, como pode me amar apenas no escuro? Num quarto alugado por duas horas ? Num sábado no fim da noite de bebedeira? E no restante do tempo ignorar que existo?
Onde aprendeu amar fragmentado, com hora marcada, com desapego mas que nunca deixa ir?
Você me olha no fundo dos olhos e diz que me ama de uma maneira só nossa e quando eu digo que te amo desvia o olhar em fuga. E dez minutos depois você foge. E quando eu digo adeus, você me toma nas mãos, me olha nos olhos e me promete outra vez um amor só nosso.
E outra vez um amor com hora marcada: "te amo, mas segunda e terça tenho outros amores"
E o que eu faço com meu "te amo" enquanto trata de amar outros?
Empacoto, coloco no bolso, guardo num cofre e ponho a chave fora.
Eu tão criativo e ávido de estórias
quis escrever uma pra nós dois
te desejei protagonista
Te projetei herói
E eu que odeio monarquias
Te coroei:
"reizinho do meu mundo imaginário"
Te imaginei príncipe do meu conto de fadas
E esperei,
pacientemente,
o momento em que vinha me salvar,
O beijo prometido e o "felizes para sempre"
mas nada disso aconteceu.
Minha fábula planejada
Virou um documentário pobre e sem roteiro
Sobre uma espera interminável
Com uma edição tosca e sem cortes
E uma tela preta, fosca, escrito fim
Em letra garrafal
sem direito a créditos,
plot twist ou cena final
Você me perguntou a cor que eu mais gostava.
Respondi: "odeio verde!"
Perguntou o sabor de bolo preferido
"Abacaxi com ameixa me embrulha".
Qual meu presente de natal preferido
"Acho tolo e uma data fabricada".
Chocolate branco ou preto.
"Açúcares me causam asco".
A primeira lembrança de infância
"Não me lembro nada"
Três coisas que odeio em você
Respondi dez numa gargalhada
Três coisas que me fazem ficar
Eu não respondi nada.
Então você se foi
E eu me senti abandonado
Hoje eu parei para analisar e descobri que a gente não tem absolutamente nada a ver um com o outro.
O que tem é uma insatisfação crônica da minha parte, um não saber quem eu sou e um estar desesperadamente procurando conexões para ver se me encontro.
Mas como eu não sei quem eu sou, eu forço conexões e gostos.
Eu forço presenças e lugares, eu forço estar e sorrisos e tentando me encontrar eu me perco cada vez mais e me frustro alimentando esse ciclo destrutivo.
Ei! Você estava lá também
Consegue me dizer?
Consegue descrever o exato momento em que aconteceu?
Quando foi que nossos lábios descolaram?
Que nossas mãos se soltaram pra nunca mais juntarem-se?
Que nossos olhares pararam de se cruzar?
Eu também estava lá e não percebi nada...
Pra mim tudo aconteceu como um sonho
Vívido, potente, forte, intenso
E como um sonho, no segundo seguinte, cessou sem pudor.
Uma centelha de luz atinge as pálpebras, a gente acorda e não há mais nada...
Por vezes sobra uma lembrança, uma vontade de dormir e continuar o sonho de onde parou, mas, exatamente como sonho nada real, Nada palpável.
Eu olho para o futuro
E enxergo um buraco negro
Engolindo tudo
Lentamente me arrastando
Pra um vazio irreparável
Parei para observar as letras enfileiradas no muro
Lembrei vagamente do tempo em que sonhava-me poeta.
"A poesia ainda vai te matar menino" ouvia.
E antes de morrer por ela, matei em mim a poesia.
Hoje, durante os segundos em que lia, tomou-me de assalto um calor confuso
Aquela vontade de mudar o mundo... Aquele sonhar utopia.
Não se desculpe por que talvez tenha me magoado ou por que acha que me feriu.
Preciso de alguém que apenas seja e que o modo de ser encaixe e funcione na medida do possível.
Não preciso de alguém que finja ser outro pra me fazer ficar.
Não se desculpe por se abrir comigo,
Também não se desculpe por não estar pronto para se abrir.
Não se desculpe por falar demais, por rir alto, nem pelos seus momentos de silêncio.
Não se desculpe por que a conversa prolongou demais, por que os assuntos eram densos ou fúteis demais.
Não se desculpe por que falou algo inconveniente, ficou nervoso, não entendeu nada, começou a gargalhar.
Não se desculpe por que fugiu do assunto, por que estava prestes a chorar.
Com o tempo a gente aprende a imensidão que é o outro e decide se quer, se pode, se deve, se consegue encarar.
Não se desculpe.
Não me peça desculpas por Fazer o que faz.
Falar o que fala.
Pensar como pensa.
E, principalmente, sentir como sente.
Não me peça desculpas por ser quem é.
Meu peito dói,
uma dor estranha.
Que parece que vai morrer
a qualquer instante...
E nunca morre.
Meu peito dói,
de uma dor constante,
uma dor apertada
como abraço de despedida.
Meu peito dói ,
como se ele sempre estivesse
dizendo "até breve''
sabendo que o "breve" é nunca.
Uma ruptura, um corte na rotina.
Aquele momento em que você está se afogando
e submerge um segundo e toma aquele pouco de ar.
Você foi aquele segundo de esperança,
aquele fio de ar que entra nos pulmões já sobrecarregados,
o monte de terra sob os pés que permite o impulso pra fora da água......,
mas apenas isso.
Aquele momento que parece que vai salvar o afogado em desespero,
se debatendo em um mar infinito,
mas que não é salvamento é apenas esperança.
E esperança depois que passa, você sabe como é....
Vira mais água e desespero e desalento e desistência.
Mas tem mares que teimam.
Mares que as águas tendem a tirar nossa força,
nossa fé, nosso ar,
mas que nunca vai nos afogar,
mesmo que em alguns momentos já estejamos implorando para tal.
O mar revolto
e salgado e repleto de algas e dejetos
em que me afogo dia após dia,
mês após mês, ano após ano,
no fim é apenas um mar
e não há mares impossíveis para quem de tanto afogamento,
aprende a nadar.
Cabe a nós o acalento, o abraço.
Cabe a nós o peito batendo,
um coletivo compassado.
Cabe a nós o afeto
o levantar de cabeça.
Cabe a nós o punho cerrado.
manter a voz, a cobrança.
Viver bem, espalhar sorriso
cabe a nós o que for preciso
pra que não falte esperança!
Abriu a grande mala velha
onde guardava pedaços
do que fora um dia.
Experimentou as coisas todas
E nada mais lhe servia....
Mais um dia frio lá fora
e aqui, dentro de meu peito, neva.
Um gelo fino que acumula rápido.
Mais tarde, lá fora,
o sol tende aquecer tudo
e espantar o frio.
e aqui, dentro de meu peito?