CHUVA
(Ou gotas)
Gosto da chuva, da
água escorrendo em meu corpo e mostrando-me coisas que o tempo limpo, por
vezes, me faz esquecer.
Gosto de andar na
chuva fina, pular, dança, porque ali debaixo das centenas de gotas caindo posso
ser de novo o menino que nunca deixei de ser posso imaginar mil coisas e
acreditar que vão acontecer.
O encontro da gota
fria na pele ainda quente traz bem mais que a sensação do frio, do alívio
quando o dia é de muito calor, da nostalgia dos banhos ao ar livre dos tempos
de menino, a gota encontrando-se com a pele traz a sensação do toque, do
sentido e a sensação do sentir que se é vivo e que se tem muito por fazer e que
se pode.
O toque leve das
finas gotas nos faz lembrar-se de ver a vida com olhos de criança e não do
adulto medroso receando a patologia que a roupa umedecida antecede; aquele
olhar infantil, leve, de ver que todas as coisas têm seus motivos e de que
devemos aproveitá-las todas, com a mais perfeita alegria.
Gosto também da
chuva grossa e de andar lentamente enquanto as espessas gotas atingem meu
corpo, meu rosto, por vezes parecendo tentar me ferir. Essa chuva lembra o
quanto somos frágeis e oprimidos e as pancadas de umidade fazem balançar os
pensamentos e nos forçam a colocar toda angustia para fora e assim caminhando
com a chuva no rosto tão forte que esconde a chuva dos olhos, das águas que transbordam
do coração, vai a água escorrendo molhando o corpo e vai a angustia junto,
lavando a alma.
Gosto da chuva por
si só, porque pode ser muitas, ser forte , assustadora ou fraca, refrescante,
ser boa ou má, ser lembrança ou medo ou ser somente chuva.
MAZZUCCO, Marcos
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