quarta-feira, 19 de agosto de 2015

capsulas e colapsos.

Um comprimido pra acordar, dois pra dormir
Prozac, lexotan, tersat, fluoxetina, rivotril, ritalina
E nos dias que estou ‘good vibe’: Florais
Café, café, café, café, café, café, café, café, cafeína, nicotina, taurina e guaraná para aguentar o tranco.
                                                                                                              !!Uma dose de vodka e duas de xarope
O fígado maltratado
O fígado grita
O fígado esbraveja
                                “O fígado, fígado, fiiiigadooo!”
Acordei falando e estava sozinho. Na internet diz que é sintoma de esquizofrenia.

Devo procurar um médico? Um psicólogo? Um analista? Um psiquiatra?
Eu preciso de um remédio! ‘Tô’ vendo vultos, falando sozinho e não durmo.

Dois comprimidos. Aumenta a dose pra três
E quatro, e cinco, e seis, e sete, e oito e.... Um
Droga!
DROGA!DROGA!DROGA!
Atrasado de novo?!
Um comprimido pra ficar acordado
Um comprimido pra relaxar
Um comprimido pro fígado
E esse comprimido verde é pra que mesmo?
Ah, já ia me esquecendo, meu comprimido para a memória.
Não esquecer, não posso esquecer. Não. Posso. Esquecer. Não posso, EU NÃO POSSO ESQUECER!
Tem que tomar Aspirina. Eu vi um dia na TV, tomar aspirinas evita dores de cabeça.
Enxaqueca, sabe?
Dói assim, uma dor bem funda. Parece que vai morrer e não morre... aí vem um afobamento, uma sensação de sufocamento...
É estresse, mas pode ser do coração também... na dúvida UM DE CA DA.
Ansiedade, tenho
Estresse, tenho
Enjoo, tenho
Labirintite, tenho
Tenho, tenho, te, te, te, te, tenho
Sensação de formigamento no braço direito, e ‘tá’ subindo.
Minha boca
Meus lábios
Minha língua
Meu palato
Minha gengiva
Não sinto, não sinto, não sinto, não sinto e não sinto.
Essa sensação, um arrepio, sabe?
Me sobe um calafrio e penso que pode ser espírito,
Sim. Vultos, eu esta VAVEN do vultos.
RIVOTRIL? Dois por favor, com gelo e limão.
Nervoso eu!? Eu!? Nervoso!? Eu não dona Ritalina, a senhora me acalma tanto...
Café, café, café, café, café , café, nicotina e um floral
Ansiedade, sabe?
Café, café, café, café, caféé, cafééé, caféééé, café, café
TV, TV, TV, TV, TV, TV
Internet. Google, facebook, youtube, in Box, instagram
Não sei o que tem que eu não durmo?
Insônia pesada, sabe? Tem dias que eu nem durmo.
E 1, e 2, e 3 e 4. Comprimidos pra dormir.
E eu nem descanso, sabe?
As 22hs e 3minutos vai tocar o despertador que faz eu não esquecer o remédio que estimula a memória.
E 1, e 2, e 3 e 4. horas da manhã.
Assistir um jornal, uma dose caprichada de chá, alface, floral e maracujá

E 4, e 5, e 6 e 7, e 8. Comprimidos pra ficar vivo.

SubProdutos do Descarte

1.
Seres noturnos disputam o frio da noite com seus corpos, expondo sua nudez por alguns trocados.
Noturnos, disputam, frio, noite, corpos, nudez, trocados.
Noturnos, frio, corpos trocados.
À beira da estrada, à margem...
Escondidas.
Atrás.
                A trans
                               Através
                                               Há talvez
                                                               A travesti
                                                                              A travessia dos carros lentos guiados por homens ético-morais que passam pela vitrine do frio da noite.
Atravessam, lentos, morais

2.
Morais e morenas despidas
O não pudor...
O não poder...
Pretas, pobres e putas; as mulatas que estampam as capas forçam outras tantas mulatas (MAIS PRETAS E MAIS POBRES) a se colocarem na vitrine à venda... MAIS PUTAS
A se jogarem nas noites
Com suas poucas roupas
Roupas curtas.
Para ganhar o pão, o pó, o leite
O deleite dos senhores da moral

3.
Bundas e peitos
Corpos perfeitos
O corpo que toda mulher queria ter
Poderia ter
Deveria ter
TER: o verbo da contemporaneidade

A mulher
Estampada         comercializada                 vendida               consumida
A mulher genética; a mulher com grandes aspas de ‘genérica’
TODAS, mulheres.

4.
Expostas e etiquetadas numa vitrine de consumo.
                               As pra comer...
                               As pra casar...
                               As pra uma noite...
                               As pra não chegar nem perto...
                               As despudoradas e as poderosas...
Peitos e bundas. Pernas e coxas. Olhos e boca. Cabelos (preso, solto, liso, cacheado, afro, Black Power). Com pelos ou sem pelos?
PRODUTOS
Tudo o que nos mostram e nos dizem e nos fazem acreditar e nos fazem seguir e nos fazem cobrar de nossas mulheres... mera construção de produto
Machos-alfas validam se é bom ou não
“CONTROLE DE QUALIDADE’’
                                               E aí, comeu?
                                               É puta!
Fiz as contas e é tudo puta:
A que se mantém virgem por opção
A que se vende na noite
A que se vende para um marido bom
A que se vende para o sistema falido
A que se vende jamais
Na boca de alguém, algum momento vai estar um P.U.T.A (Puta)
BEM GRANDE
5.
A inferiorização da meretriz
O subjulgamento do sexo
A liberação do sexo
A banalização do sexo
A criminalização do sexo
A demonização do sexo
A comercialização do sexo

6.
Quanto dinheiro ganha um cafetão ou cafetina?
E as putas da esquina?
Quanto ganham?
Diz-se por aí que estão ali porque querem
Ouvindo isso, exime-se de culpa
Acreditando nisso, exime-se de culpa
Propagando isso, exime-se de culpa
Opção ou imposição? Se expor na rua

7.
A travesti bombada no silicone industrial, com os pés roxos do frio, o canto da boca roxo de uma agressão e as coxas ainda roxas da cirurgia... quer estar ali?
Alguém, em algum lugar, quer estar de fato onde se está?

8.

As putas, as travestis, as trans e os outros seres noturnos são frutos de si mesmos? Ou são frutos de vitrines que a sociedade estimula e consome?