HERANÇA
(Ou panos)
Pegou a grande
caixa que guardava com tanto zelo na parte alta de seu guarda-roupa. Abriu-a e
tirou de lá um emaranhado de tecidos branco-amarelados, típico dos brancos
pouco usados, bateu o tecido em suas mãos e subiu o cheiro do veneno que
deixava aquilo intacto e não alimento de bicho.
O cheiro daquele
tecido era um cheiro de nostalgia, de sonhos. Havia sido de sua mãe e antes de
sua avó e seria de sua filha; cheirava a veneno de pragas, uma pontinha de mofo
e saudade, saudade dos momentos que precederam o sim que aqueles tecidos
presenciaram.
Aqueles brancos
tecidos, quase amarelos do tempo, acompanhados de linhas, bordados e fiapos,
muito embora sem valor, (ao menos quando valor se refere a dinheiro) eram muito
mais do que tecidos, eram concretização. Aqueles tecidos vestiram o corpo nu na
hora em que para muitos é a mais feliz da vida e aqueles tecidos que foram
despidos para que ela conhecesse a vida.
Aqueles panos
escondidos na solidão da parte alta do guarda-roupa foram espectadores de
noites maravilhosas as quais ela implorava que não acabasse e também das noites
mal dormidas pelo acordar repetitivo por choros de criança.
Aqueles tecidos
velhos sabiam mais da intimidade dela, do que ela própria, bem como as de sua
mãe e de sua avó.
O amontoado
amarelado de tecidos cheirava a pó e segredos, segredos que só ela e os panos
sabiam. Foram nas noites sós a companhia que teve, sempre lá do alto.
Agora havia
cumprido-se a tradição, os panos iriam para outra, para ouvir o sim de outra boca, e ouvir os segredos de outros
corpos, nas noites adentro ou nos comecinhos de manhã.
Ela despediu-se do
emaranhado de tecidos, amigos das horas mais intimas, como despede-se de um
amigo que fecha os olhos para nunca mais abri-los, mas no fundo do peito havia
felicidade por poder passar a caixa, os tecidos, as linhas, os bordados, o
cheiro de veneno, a nostalgia e os segredos como a mãe havia lhe passado,
cumprindo um singelo ritual, e pensava se os panos ainda existiriam quando
fosse hora da filha repassá-lo. Pensava também quanto sobre amores, sobre
homens e mulheres e sobre as coisas dos casados aqueles tecidos sabiam e tinha
certeza do valor incalculável que aqueles tecidos tinham por carregar tanta
história.
Fechou a caixa e
carregou-a para a filha lembrando-se da importância que tiveram aqueles tecidos
amarelos a quem a mulher sempre que cita, suspira: “meu vestido de noiva”.
MAZZUCCO, Marcos
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