segunda-feira, 30 de setembro de 2013

HERANÇA (Ou panos)

HERANÇA (Ou panos)

Pegou a grande caixa que guardava com tanto zelo na parte alta de seu guarda-roupa. Abriu-a e tirou de lá um emaranhado de tecidos branco-amarelados, típico dos brancos pouco usados, bateu o tecido em suas mãos e subiu o cheiro do veneno que deixava aquilo intacto e não alimento de bicho.
O cheiro daquele tecido era um cheiro de nostalgia, de sonhos. Havia sido de sua mãe e antes de sua avó e seria de sua filha; cheirava a veneno de pragas, uma pontinha de mofo e saudade, saudade dos momentos que precederam o sim que aqueles tecidos presenciaram.
Aqueles brancos tecidos, quase amarelos do tempo, acompanhados de linhas, bordados e fiapos, muito embora sem valor, (ao menos quando valor se refere a dinheiro) eram muito mais do que tecidos, eram concretização. Aqueles tecidos vestiram o corpo nu na hora em que para muitos é a mais feliz da vida e aqueles tecidos que foram despidos para que ela conhecesse a vida.
Aqueles panos escondidos na solidão da parte alta do guarda-roupa foram espectadores de noites maravilhosas as quais ela implorava que não acabasse e também das noites mal dormidas pelo acordar repetitivo por choros de criança.
Aqueles tecidos velhos sabiam mais da intimidade dela, do que ela própria, bem como as de sua mãe e de sua avó.
O amontoado amarelado de tecidos cheirava a pó e segredos, segredos que só ela e os panos sabiam. Foram nas noites sós a companhia que teve, sempre lá do alto.
Agora havia cumprido-se a tradição, os panos iriam para outra, para ouvir o sim  de outra boca, e ouvir os segredos de outros corpos, nas noites adentro ou nos comecinhos de manhã.
Ela despediu-se do emaranhado de tecidos, amigos das horas mais intimas, como despede-se de um amigo que fecha os olhos para nunca mais abri-los, mas no fundo do peito havia felicidade por poder passar a caixa, os tecidos, as linhas, os bordados, o cheiro de veneno, a nostalgia e os segredos como a mãe havia lhe passado, cumprindo um singelo ritual, e pensava se os panos ainda existiriam quando fosse hora da filha repassá-lo. Pensava também quanto sobre amores, sobre homens e mulheres e sobre as coisas dos casados aqueles tecidos sabiam e tinha certeza do valor incalculável que aqueles tecidos tinham por carregar tanta história.
Fechou a caixa e carregou-a para a filha lembrando-se da importância que tiveram aqueles tecidos amarelos a quem a mulher sempre que cita, suspira: “meu vestido de noiva”.






MAZZUCCO, Marcos

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