sábado, 4 de julho de 2015

Oficina dramaturgia

Ele caminha com passos largos, olhos firmes na direção em que segue e os pensamentos em um lugar que nem ele mesmo sabe.
Ao fundo uma imensidão de concreto
Arame e madeira.
Concreto armado, na vertical.
Uma sobreposição de cinzas com pequenos quadrados por onde brota luz; a ambientação quase perfeita para aquele solitário.
Ele caminha pela calçada vazia.
Sente na pela (a pouca que está exposta) o calor dos primeiros raios de sol e o vento, um ar gelado (quase fúnebre) do domingo recém iniciado de meio de outono...
Há uma orquestra de pequenos sons...
Carros. Poucos e lentos... o sutil barulho do pneu encontrando o asfalto
Palavras ecoando... e o não tão sutil roncar de um motor
Atchim! (Ouve-se bem longe)
Saúde!
Cof!Cof! alguém tosse...
Um som que de tão longe quase se perde, mas que lhe parece um latido...
Isso foi um miado?
Chega a ouvir o arrastar das folhas pelo vento...
O próprio vento batendo na parede em um assombro ou assovio...
Abrir e fechar de janelas... e portas.
Portas.
PORTAS
Muitas portas, com seu ranger de abrir ou fechar...
As portas não chegam a incomodá-lo, mas o barulho que fazem em sua cabeça lhe tira o foco....
Porque estão aqui? (Se pergunta)...
A sequencia aleatória de diferentes portas- postas lado a lado - o intrigava.
Quais segredos podem guardar estas portas? (Se pergunta novamente)...
Será que há nelas mais segredos que eu possa guardar?
Foto Vivian Maier


Um comentário:

  1. Marcos, que alegria para mim ver seu texto impresso, revisado com tanta prontidão. Percebem-se nele as alterações. A mão do poeta que pediu licença para interferir. E sabemos o quanto essa escrita pode ganhar no contato com e cena e a poesia de outr@s criador@s.

    O sujeito de seu texto, de um certo modo, faz o mesmo que Vivian Maier: abre-se ao desconhecido. Permite-se o contato com o novo. Nesse sentido, me remetem diretamente a um texto do Julio Cortázar chamado "Manual de instruções". É um manual para a vida e eu te dou presente (se é que ainda não o conhece), como demonstração da minha alegria ao te ler.

    "A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HOTEL DE BELGIQUE.

    Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem. Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café. E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro. Castigar os olhos fitando isso que anda no céu e aceita astuciosamente seu nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra do centro em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar de cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar em cima onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça parar pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-o: essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar á escada, saberei que lá em baixo começa a rua; não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta de tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina." (Julio Cortázar. Histórias de cronópios e de famas)

    Abraço da Adélia

    ResponderExcluir