quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SubProdutos do Descarte

1.
Seres noturnos disputam o frio da noite com seus corpos, expondo sua nudez por alguns trocados.
Noturnos, disputam, frio, noite, corpos, nudez, trocados.
Noturnos, frio, corpos trocados.
À beira da estrada, à margem...
Escondidas.
Atrás.
                A trans
                               Através
                                               Há talvez
                                                               A travesti
                                                                              A travessia dos carros lentos guiados por homens ético-morais que passam pela vitrine do frio da noite.
Atravessam, lentos, morais

2.
Morais e morenas despidas
O não pudor...
O não poder...
Pretas, pobres e putas; as mulatas que estampam as capas forçam outras tantas mulatas (MAIS PRETAS E MAIS POBRES) a se colocarem na vitrine à venda... MAIS PUTAS
A se jogarem nas noites
Com suas poucas roupas
Roupas curtas.
Para ganhar o pão, o pó, o leite
O deleite dos senhores da moral

3.
Bundas e peitos
Corpos perfeitos
O corpo que toda mulher queria ter
Poderia ter
Deveria ter
TER: o verbo da contemporaneidade

A mulher
Estampada         comercializada                 vendida               consumida
A mulher genética; a mulher com grandes aspas de ‘genérica’
TODAS, mulheres.

4.
Expostas e etiquetadas numa vitrine de consumo.
                               As pra comer...
                               As pra casar...
                               As pra uma noite...
                               As pra não chegar nem perto...
                               As despudoradas e as poderosas...
Peitos e bundas. Pernas e coxas. Olhos e boca. Cabelos (preso, solto, liso, cacheado, afro, Black Power). Com pelos ou sem pelos?
PRODUTOS
Tudo o que nos mostram e nos dizem e nos fazem acreditar e nos fazem seguir e nos fazem cobrar de nossas mulheres... mera construção de produto
Machos-alfas validam se é bom ou não
“CONTROLE DE QUALIDADE’’
                                               E aí, comeu?
                                               É puta!
Fiz as contas e é tudo puta:
A que se mantém virgem por opção
A que se vende na noite
A que se vende para um marido bom
A que se vende para o sistema falido
A que se vende jamais
Na boca de alguém, algum momento vai estar um P.U.T.A (Puta)
BEM GRANDE
5.
A inferiorização da meretriz
O subjulgamento do sexo
A liberação do sexo
A banalização do sexo
A criminalização do sexo
A demonização do sexo
A comercialização do sexo

6.
Quanto dinheiro ganha um cafetão ou cafetina?
E as putas da esquina?
Quanto ganham?
Diz-se por aí que estão ali porque querem
Ouvindo isso, exime-se de culpa
Acreditando nisso, exime-se de culpa
Propagando isso, exime-se de culpa
Opção ou imposição? Se expor na rua

7.
A travesti bombada no silicone industrial, com os pés roxos do frio, o canto da boca roxo de uma agressão e as coxas ainda roxas da cirurgia... quer estar ali?
Alguém, em algum lugar, quer estar de fato onde se está?

8.

As putas, as travestis, as trans e os outros seres noturnos são frutos de si mesmos? Ou são frutos de vitrines que a sociedade estimula e consome?

Um comentário:

  1. Poético e forte, me fez pensar , e me deu vontade de usar varias coisas escritas aqui.

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